quinta-feira, 28 de maio de 2015

É sempre tempo de...

O último registro de Fernando Pessoa foi uma frase em inglês:"I know not what tomorrow will bring". Exatamente pela incerteza do amanhã é que devemos, sempre que possível, viver e contemplar o hoje (aqui e agora), sem esquecermo-nos do passado, mas sempre com projetos e sonhos, vivendo o presente e pensando, também, no dia de amanhã, no futuro... pensando em mudar... pensando em mudar... pensando em sermos melhores (mais adequado seja sermos menos piores)... considerando reais possibilidades de sermos felizes, com muito ou com pouco... pouco importa... pensando nas voltas que o mundo dá... pensando nas conquistas e nas lições aprendidas... vivendo a vida... curtindo cada momento... cada pessoa e nós mesmos.






Algumas vezes custamos a entender essas coisas... outras vezes nós simplesmente as ignoramos... O fato é que não podemos esperar o tempo passar e, ao final, concluirmos que não vivemos da maneira como deveríamos (bem, certamente algumas coisas ficarão para trás, pois nem sempre elas acontecem da maneira como queremos, mas sempre temos a chance de tentar).

terça-feira, 7 de abril de 2015

A Matemática da Vida ( I )

Algumas vezes fico pensando na vida, nas coisas que acontecem ao longo dessa nossa breve jornada em meio aos zilhões de anos que já passaram, passam e passarão...

Creio que os versos de William Blake ajudem a elucidar um pouco do que estou falando:

"To see a world in a grain of sand,
And a heaven in a wild lower,
Hold infinity in the palm of your hand,
And eternity in an hour."

Cada dia é um desafio... é sempre um motivo (ou uma desculpa) para fazermos descobertas e redescobertas nesse mundo que, por vezes, parece ser um grão de areia... um ínfimo grão de areia...

... E a vida, as coisas, o mundo, tudo pode ser mais belo do que parece... mais eterno do que de fato dure, assim como ser mais infinito em nossa plena finitude... Tudo depende da maneira como encaramos os fatos... tudo depende do referencial...

Constantemente são lançadas algumas discussões sobre o número de partículas que compõem o Universo... e seus desdobramentos... Isso tudo me faz lembrar, também, os versos de Blake que, de alguma maneira, traduzem a nossa pequenez frente ao Universo e o quanto tudo pode ser relativo. Podemos encontrar nas coisas pequenas e simples mais do que podemos imaginar... e, em meio aos grandes desvarios da vida, grandes surpresas... E isso, por consequência, me faz lembrar de muitos momentos que temos na vida que de certa forma retratam essa relatividade.

Mesmo diante das adversidades, o que não pode nos faltar é força para superá-las. Claro, esse é um dos desafios... nem sempre é fácil, mas fica menos difícil quando nos dispomos a encará-las e, principalmente, quando contamos com aqueles que nos encorajam... Nesse sentido, o tempo torna-se um grande aliado.

A vida, no final das contas, será uma enorme tabela de pontos pelos quais poderá ser observado um polinômio interpolador com algumas características bem interessantes, tais como máximos e mínimos e mudanças de comportamento, sem perder sua continuidade. E são exatamente esses máximos e mínimos, bem como as inflexões, que nos tornam fortes para continuar essa caminhada... ora estamos nas alturas dos máximos, ora nas agruras dos mínimos... e o que fato tem valor é aquilo que fica desse processo, as lições que aprendemos e os momentos que eternizamos na nossa mente e no nosso coração... a eternidade de uma hora, de um minuto, de um segundo... de uma meia-vida... de uma vida inteira. Legados que passam de geração em geração... valores, crenças, histórias, contos, fábulas, ficção, realidade... 


  Little Boots - "Mathematics"


PS: Se a vida fosse linear, certamente seria uma chatice... Se fosse senóide ou cossenóide, seria menos chato, entretanto os máximo e mínimos nem sempre têm a mesma amplitude e nem sempre ocorrem periodicamente... Agora, uma função polinomial de n-ésimo grau representa bem essas inconstâncias da vida...

terça-feira, 24 de março de 2015

Poema Fantasma

Enquanto escrevo estes versos, meu coração chora...
Sente a sua falta e espera a sua chegada, sem demora...
Não tenho tempo para chorar, devo apenas prosseguir,
Compreender a sua ausência e, de alguma forma, sorrir...

Enquanto escrevo estes versos, minhas mãos tremem,
Pois, ainda que eu relute, inexplicavelmente pressentem
Que não tocarão mais o seu corpo, não sentirão seus beijos...
Meu corpo inteiro deve acostumar-se a inibir nossos desejos.

Enquanto escrevo estes versos, perdidos no tempo e no espaço,
Apenas queria tê-lo comigo, num demorado e caloroso abraço...
Agora levarei na lembrança o seu gosto, o seu cheiro, o seu calor, o nosso amor...

Enquanto escrevo estes versos, vejo que o tempo passou, sem piedade,
Já faz tanto tempo... nem me dei conta do quanto privei-me da liberdade
De viver a vida... Viver com você... Viver sem você... Apenas viver...


terça-feira, 10 de março de 2015

Into the Wild - Na Natureza Selvagem

Já havia assistido "Into the Wild" ("Na Natureza Selvagem") pelo menos umas cinco vezes... inclusive pude assisti-lo no cinema, em sua estreia. Não sei quantas vezes ouvi as músicas que compõem a sua trilha sonora... e recentemente li o livro. (O filme é baseado no livro, de mesmo título, de Jon Krakauer, e trata da história de um jovem de 22 anos que resolveu viajar pelos Estados Unidos até a maior de suas viagens: o Alasca. Produzido em 2007, a direção é de Sean Penn e a trilha sonora é de Eddie Vedder (<3), Michel Brook e Kaki King.)


É impossível não pensar na história de Christopher "Alexander Supertramp" J. McCandless. Num primeiro momento dá vontade de largar tudo, colocar uma mochila nas costas e desbravar o mundo... é libertário... depois vem um sentimento de "meu, como esse rapaz foi ignorante, burro!"... e depois vem um sentimento de "putz! como sou bunda-mole!"...
É difícil julgar a escolha de Chris. Certamente ele cometeu alguns erros grosseiros que custaram a sua vida, mas, ao mesmo tempo, resolveu descobrir-se na forma mais primitiva e íntima, tentando libertar-se de qualquer estereótipo imposto pela sociedade.

Autorretrato Christopher J. McCandless, ou Alexander Supertramp, 
em frente ao ônibus 142, onde viveu sua última viagem. 

Cada um de nós tem o seu jeito de conhecer-se, de reconhecer-se, de descobrir-se... alguns recorrem à meditação, outros à religião, há aqueles que recorrem às drogas ou às terapias ou ao isolamento... Cada caminho escolhido está diretamente relacionado aos contentamentos e descontentamentos mundanos, às experiências de vida, aos bons e maus momentos... Penso que passamos a vida toda buscando respostas para perguntas tais como "de onde viemos?", "para onde vamos?", "por que estamos aqui?", "quem somos?", "como sermos feliz?", "como buscarmos a felicidade?", "podemos ser felizes para sempre?", "como reconhecermos o verdadeiro amor?"... Não creio que consigamos responder todas essas perguntas de forma categórica... elas têm um quê muito subjetivo... são absolutamente existenciais... Para alguns grupos, as respostas serão de senso comum, canônicas... para outros, totalmente divergentes... sem contar aqueles que passarão despercebidamente por esses questionamentos. (E cada um de nós tem as suas maneiras de fugir da realidade que, por vezes, é estarrecedora, sem recorrer a maior de todas as fugas... ainda que, às vezes, ela parece ser inevitável.)


Às vezes parece ser penoso olharmos para nós mesmos e admitirmos quem somos, com nossos defeitos e qualidades... Muitas vezes buscamos ser infalíveis, certeiros, mas esquecemos que somos seres humanos, passíveis a erros... é mais fácil apontar os erros dos outros do que corrigirmos nossos próprios erros... é muito cômodo criticar e enxergar as imperfeições alheias a nos autoavaliarmos, nos autocriticarmos... e não precisamos fazer isso como se estivéssemos pagando um castigo, cumprindo uma pena, mas devemos encarar como uma oportunidade de nos tornarmos seres humanos menos piores, de evoluirmos. Da mesma forma, devemos reconhecer nossos acertos e nossas qualidades, com humildade, e seguir adiante tornando-nos exemplos para nós mesmos.


Levar o mundo a ferro e fogo, como dizem por aí, não parece ser a melhor opção, uma vez que os extremos nem sempre são os melhores caminhos a serem seguidos o tempo todo para chegarmos ao nosso destino final. Às vezes é necessário seguirmos pelo caminho do meio, entre um extremo e outro, afim de nos compreendermos melhor, de compreendermos o mundo e aqueles que estão ao nosso redor. É claro que vez ou outra fazemos as escolhas erradas e ao darmos por isso bate aquela sensação de fracasso, pois sabemos que toda e qualquer escolha traz consequências e sabemos que teremos um ônus ou, quem sabe, um bônus. Seguir pelo caminho do meio não significa abrirmos mão de nossas crenças, dos nossos posicionamentos, mas ajuda a recalibrar a nossa escala de valores de acordo com as nossas convicções e lutarmos por elas sem que esse caminho seja fator impeditivo para termos alguns extremos a seguir.
Temos, em nosso interior, nossas razões para agirmos da maneira como agimos, sermos da maneira como somos, estarmos da maneira como estamos, e isso de forma alguma deve ignorar a existência daqueles que estão ao nosso redor... devemos saber conviver com as diferenças, com as adversidades, com a liberdade de escolha, com o livre arbítrio... e isso exige de nós certo grau de tolerância, de compreensão, independente de concordarmos ou não. Respeitar as posições alheias não significa sermos submissos a elas, mas, quem sabe, reforçar aquilo que acreditamos e rever alguns outros pontos (talvez aqueles mais obscuros).


Ao longo do tempo precisamos ser protagonistas da nossa própria história, ao invés de sermos coadjuvantes. Isso requer coragem para abrir mão de alguns dogmas, abdicar alguns bens e seguir adiante, sem deixarmos de compartilhar  nossas alegrias e tristezas com aqueles que amamos e mostrar que faz parte da nossa natureza alçarmos voos na direção das nossas realizações pessoais, dos nossos sonhos...  daí pode ser que sigamos (ou tenhamos que seguir) por caminhos extremos... por trilhas nada lineares, nada triviais... pela "natureza selvagem".


Link para a trilha sonora de "Into the Wild".

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Cada Gota de Chuva...

Cada gota de chuva é uma alegria,
Mas, às vezes, é uma tristeza...
Passa a vida, finda mais um dia
E, de repente, posso contemplar sua beleza.

Depois de uma tarde tempestuosa,
Um arco-íris alegra o céu...
É uma delicadeza vertiginosa
Que transcende caneta e papel...

Um momento instantâneo de felicidade...
Uma mistura de percepções e abstrações
Que tomam conta da minha sanidade.

Cada gota de chuva é um sentimento
Que transborda em nossos olhos...
Pequena poesia de um breve descontentamento.




Apertando o pause no fim da tarde, depois de uma tempestade (IME-USP).

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Whiplash - Em Busca da Perfeição

Um dia desses resolvi "brincar" diante de uma bateria... Adorei a experiência e quem sabe, um dia, eu volte a me aventurar com minhas baquetas. O fato é que quem já aprendeu (ou tentou aprender) a tocar algum instrumento musical precisou treinar os fundamentos uma, duas, três, quatro, cinco, ... , n vezes. Precisa criar calo, precisa desenvolver a agilidade das mãos, dos dedos, dos pés... são tantas coisas, mas quando começamos a ouvir os resultados, a satisfação é imensa... vale cada calo, cada esparadrapo nos dedos, cada bronca do professor, cada "pare e comece de novo!"... A primeira vez que consegui executar uma música inteira, sem errar, fiquei extremamente feliz... e a minha vontade era de continuar ali por horas e horas, estudando e treinando até conseguir executar a próxima música...
Sempre gostei muito de música e com o passar do tempo o meu leque foi abrindo... saí das músicas psicodélicas dos anos 80, que permearam a minha infância,  para o rock grunge dos anos 90... e foi nessa década que me deparei com os clássicos do rock, com a música erudita, com o jazz, com vários outros estilos musicais que nunca tinha ouvido antes e fui treinando os meus ouvidos, fui sentindo a música dentro de mim, fui aprendendo a apreciar a música sem me importar de onde ela era. É incrível o poder que a música exerce sobre nós: não precisamos falar o mesmo idioma, nos entendemos através de acordes... a música tem um poder de aproximar pessoas, nações... tem o poder de transformar vidas.


Quando assisti "Whiplash - Em Busca da Perfeição", fiquei imediatamente encantada pela trilha sonora. O efeito da música, neste caso, faz a gente entrar na história... é quase uma entrega, com direito a sentir os graves do baixo, do bumbo... uma experiência! Ao longo do longa é impossível não extrapolar a história de Andrew, um jovem baterista que decide estudar na melhor universidade de música e pretende tornar-se o melhor baterista do mundo. Ele encontra pela frente o professor Fletcher, que deseja formar os melhores músicos do mundo. Daí creio seja possível imaginar o eletrizante encontro desses dois, principalmente quando você ouve o seu professor olhar bem prá você e dizer "Não há duas palavras mais perigosas na nossa vida do que 'bom trabalho' ". Muito suor, sangue, competição, bullying, humilhações, descrenças, agonia, êxtase... Não dá para descrever, é necessário assistir e sentir.

Trailer de "Whiplash - Em Busca da Perfeição".

Obviamente o que se vê no Conservatório Shaffer também pode ser visto em outros ambientes educacionais, com muita competição, com a constante busca pela perfeição naquilo que se faz e, também, na relação entre professor e aluno, além do prazer pelo conhecimento.
Há inúmeras maneiras de incentivar alguém a fazer algo... e essas maneiras vão de palavras de incentivo positivas até meios nada ortodoxos. Algumas vezes um comentário depreciativo de um professor pode levar um aluno a superar seus limites e provar que não é nada daquilo que está sendo dito, sem ônus, ou pode causar um efeito contrário, fazendo o aluno desistir de tudo. Quantas vezes já presenciamos isso em nossa vida? Qual é o limite entre o incentivo e a violência, o estímulo e a crueldade? Há quem acredite piamente que os fins justificam os meios, sempre. Será? Como aluna, vi e senti isso muitas vezes, ao longo da minha vida acadêmica, e prometi a mim mesma que jamais reproduziria em minha prática docente certas atitudes, que desdém a capacidade e o potencial de um aluno. É certo que alguns não servem para aquilo que estão se propondo fazer e precisam encontrar um outro caminho, mas isso deve ocorrer de uma forma natural - ainda que a naturalidade disso, além de uma conversa amistosa, seja um mundo de DP´s - sem que o aluno se sinta incapaz, tão incapaz a ponto de questionar a sua própria existência. Todo professor, ainda que não queira, exerce certo poder sobre seus alunos... inspira, aponta caminhos, é severo... mas ser severo não significa necessariamente ser cruel. Fazer cobranças, apontar caminhos, incentivar... isso não necessariamente precisa vir num tom de camaradagem, mas pode vir num tom que não seja de crueldade. O professor não deve ser um algoz de seu aluno.
Saí da sala encantada com as músicas... fui para casa cantarolando, na minha cabeça, "Take Five", que nem faz parte da trilha sonora do filme, mas é uma música que quando vejo sendo executada pelo The Dave Brubeck Quartet me encanta. É um verdadeiro trabalho em equipe, sem que cada talento se sobreponha a outro. São todos talentosos, se respeitam, brilham, e o resultado final é uma música que faz bem para a alma. Parece ser esse o princípio de uma banda de jazz ou de qualquer outra banda ou de qualquer outra iniciativa coletiva (incluindo uma sala de aula, um grupo de pesquisa, uma instituição de ensino).


The Dave Brubeck Quartet - "Take Five".

Vale muito a pena assistir esse filme, mesmo aqueles que não gostam de jazz. A história vai além e nos faz questionar certas atitudes que tomamos, principalmente aquela de nos recusarmos a pedir ajuda mesmo quando vemos que as coisas fugiram do nosso controle. Reconhecer que não estamos dando conta das coisas é horrível, se sempre estamos a frente de tudo que fazemos, mas ignorar e necessidade de ajuda pode trazer consequências irreversíveis. Vale muito a pena buscar o equilíbrio e aprender a dosar nossos esforços na direção dos resultados que buscamos. Essa é uma daquelas lições que devem ser estudadas na teoria e, principalmente, na prática. Requer treino... às vezes exaustivos treinos para ser compreendida... e, ainda sim, não será plenamente aprendida pois, assim como no jazz, contamos com alguns improvisos... diria que na vida contamos com alguns imprevistos e precisamos saber como reagir a isso, precisamos saber "improvisar".

Trilha sonora de "Whiplash - Em Busca da Perfeição".

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Quimera

...E assim segue a vida, passando rapidamente...
Quase não temos tempo para expressar nossos sentimentos...
São inúmeros os compromissos... e o nosso desejo é latente,
E se perde em meio a tantas responsabilidades e pensamentos.

Quisera que o tempo parasse por um breve instante,
Com duração suficiente para colocarmos nossa vida em dia...
Quem dera nosso caminho fosse menos errante
E pudéssemos viver momentos únicos de plena epifania...

... Lá se vão as esperanças... lá se vai a felicidade...
E fica o gosto amargo da desilusão, da decepção, do não...
Um não categórico, ponderado pela insensibilidade...

No mundo das ideias, tudo parece fácil, factível, possível...
No mundo real, o número de variáveis beira o infinito...
No final, não adianta relutar... resta aceitar que é impossível...



"Palco do Tempo", Noiserv.