Seguimos diferentes caminhos,
Topamos com alguns moinhos...
Mas, em algum momento,
Nossos caminhos se cruzam, guiados pelos vento.
Ouvimos o silêncio de nossos passos
E, a cada caminhada, estreitamos nossos laços...
Nos descobrimos e redescobrimos todos os dias,
Sejam eles repletos de tristezas, de alegrias,
Ou ainda tudojuntoemisturado...
Confundindo o profano com o sagrado,
Sem que saibamos distinguir o que real do que é imaginário...
No final reconhecemos o quão extraordinário
É estarmos aqui, vivendo a vida,
Sem temermos pela hora da partida,
Mas cientes de todos os amores e boas ações
Que preenchem, aquecem, confortam e fortalecem nossos corações.
Hoje o meu dia começou cedo, às 5h 30. Assim que o celular despertou, levantei, tomei um banho e saí para trabalhar. Foram cinco aulas de Matemática, para oitavos anos. Logo que a minha última aula terminou, atravessei a cidade para continuar com o meu trabalho... Peguei um barril de chope para levar de uma ponta a outra de São Paulo. E, mais uma vez, atravesso a cidade para uma reunião da Cervejaria.
Passei um tempo razoável em trânsito e no trânsito, sozinha... na verdade, com meus pensamentos e sentimentos. Ao mesmo tempo que pensava na agenda, nas coisas que estava fazendo e precisava fazer, foi inevitável não voltar no tempo: há dois anos perdia o meu pai.
Muitas vezes, quando estou no trânsito, me lembro dele, me lembro das nossas conversa ao longo das longas idas e vindas para o InCor.
Conversávamos sobre muitas coisas, mas tinha um assunto que era recorrente: tempo de vida x qualidade de vida. Desde que meu pai infartou pela primeira vez, em 1990, sua vida não foi mais a mesma. Sua saúde, com o tempo, foi ficando frágil. Ainda que ele se mantivesse durão, essa debilidade era nítida. Foram vários procedimentos ao longo de seus últimos 26 anos, incluindo cirurgia e um "reboot"...
Em uma das consultas, o parecer derradeiro: "Infelizmente não há mais nada que podemos fazer". É bem complicado ouvir essa constatação e lidar com ela... mas foi assim que meu pai encarou os últimos anos, com a sentença muito bem definida e anunciada.
Nas nossas conversas, a indagação sobre tomar tantos remédios por dia (vinte e poucos comprimidos) e não conseguir fazer coisas cotidianas e simples. A Medicina o mantinha vivo, mas sem qualidade de vida... e, ainda que o parecer dos médicos, em algum momento, tenha sido muito claro, não estávamos preparados para tal. (Aliás, o que tenho constatado é que nunca estamos preparados para as perdas, ainda que saibamos que um dia elas ocorrerão .)
Sabendo que meu pai tinha apenas 25% de seu coração funcionando e muitas complicações e limitações se apresentando, dia após dia, por conta disso, sempre ficava pensando no que poderia fazer para minimizar tudo isso... uma casa sem escadas, o máximo de conforto, pequenos prazeres cotidianos... muitas vezes me colocava no lugar dele na tentativa de entender um pouco mais de sua realidade... e esse era, para mim, um dos exercícios mais duros...
Apesar de lamentar sua partida, de certa forma prematura, consigo perceber que se ele tivesse sobrevivido a mais um infarto, não sei em quais condições estaria. Certamente preso numa cama... talvez em estado vegetativo... sei lá... não dá pra saber... mas qualquer uma dessas opções o deixaria absolutamente chateado, principalmente porque ele era um cara ativo. Quando penso em tudo isso, concluo que sua partida ocorreu no tempo certo, sem que houvesse mais sofrimento. Há quem me julgue por pensar assim, mas a vida e o tempo têm me mostrado isso, tem me permitido respeitar as limitações do corpo, da mente e do próprio tempo.
Recentemente conheci um trabanho muito interessante e que, para mim, faz total sentido: tratamento paliativo.
Vi um pouco desse tratamento ser aplicado ao meu avô que, em seus noventa anos de idade, sofreu com o peso do tempo... e sei que todos se esforçaram muito para dar-lhe um tratamento digno, respeitando seu tempo.
Hoje foi um dia de reflexões sobre essas questões... às vezes queremos que um ente querido, que um amigo, permaneça aqui conosco, não importa em quais condições... e isso, a meu ver, é muito egoísmo de nossa parte. Precisamos aceitar nossa finitude e fazer com o fim da jornada seja digno, respeitoso, sem dor.
O trabalho da Dra. Ana Claudia Quintana Arantes, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - FMUSP - ao qual me referi anteriormente, trata disso: de como respeitar o fim, quando esse é o único meio disponível pela Medicina.
Vale a pena saber um pouco mais sobre o assunto. Creio que sua fala traz um pouco mais de esclarecimento ao assunto... afinal, "a morte é um dia que vale a pena viver ".
TEDxFMUSP - Dra. Ana Claudia Quintana Arantes
Gostaria que meu pai estivesse aqui hoje... ele estaria pirando, junto comigo, na reviravolta que a minha vida deu e está dando. Me contento com as boas lembranças e com seu desejo de que a Medicina evolua não apenas para deixar seus pacientes vivos, seja lá por quanto tempo for, mas que tenham qualidade de vida. Que esses segundos a mais valham a pena e possam ser, de fato, vividos. Caso contrário, será difícil entender o quanto essa sobrevida vale a pena (e esse é, sem dúvida, um dos meus questionamentos que me perturbam).
Pra finalizar, devo admitir que não há um dia em que não sinto saudades do meu pai. Sempre que saio pra trabalhar, me lembro dele... a minha última memória dele é vê-lo, pelo retrovisor, fechando o portão. No início foi dificílimo chegar em casa e não tê-lo mais me esperando. As boas lembranças são aquelas que ficam e aquecem o coração. É difícil não contar com sua presença física, com seu beijo e seu abraço... mas também não seria fácil tê-lo aqui, fisicamente, sem qualquer condição de dar um beijo, um abraço ou papear um pouco.
O meu amor por ele será eterno, assim como a minha gratidão e as boas lembranças, incluindo a longa conversa que tivemos - nossa última longa conversa após assistir "Interstellar", uma semana antes de sua partida numa tarde de domingo... conversamos sobre Física, sobre Teoria da Relatividade e, novamente, sobre as questões relacionadas ao tempo... o tempo de vida/sobrevida e a qualidade de vida.
Por mais que nos indignemos, nos inconformemos, nos recusemos a aceitar, uma vez estando vivos, o certo é que um dia, não sabemos quando e nem como, morreremos... todos nós, sem exceção.
Algumas vezes o quando e o como acabam dando as caras, num anúncio, que parece ser desesperador, de que a morte está próxima... não há o dia exato, mas há o período... não há a causa exata, mas há os problemas evidentes que farão ela chegar...
Fiquei pensando nisso quando me deparei com a notícia da morte de John Nash e sua esposa, Alicia. Essa foi uma daquelas notícias inesperadas. Mesmo sabendo de seus 86 anos, Nash ainda estava na ativa.
Ocorrências como essas proporcionam uma reflexão sobre os valores das coisas, sobre o que realmente devemos considerar importante, relevante, imprescindível. Às vezes, por alguma razão, brigamos, destratamos o próximo, respondemos muito mal a uma simples pergunta... claro, não são raras as vezes que nos cansamos de uma série de coisas, de algumas mesmices, de algumas manias, mas devemos ponderar tudo isso. O simples fato de sair sem falar tchau pode implicar na última oportunidade de dizer que, na verdade, ao invés de ódio o que sempre houve foi muito amor... mas, às vezes, isso pode passar de forma despercebida e sem chance de voltar atrás.
Fiquei pensando nessas coisas... fiquei pensando na nossa atual realidade composta por guerras, ataques das mais variadas ordens, fanatismos que caminham na direção contrária da paz pregada pelas tais leituras sagradas, dentre tantas outras coisas.
Parece que o melhor a fazer é nos vigiarmos diuturnamente, com o objetivo de errarmos menos, de amarmos mais, de percebermos o valor das coisas em atitudes que nem precisam ser muito rebuscadas... pequenos atos que, juntos, implicam numa enormidade ao final da nossa vida, deixando a nossa consciência tranquila, livre do peso da indiferença, do tormento do arrependimento.
Escrevo apenas para que saiba que a hora é esta e eu partirei...
Partirei sem dizer adeus... partirei sem olhar para trás...
Vou seguir por muitos caminhos pelos quais nunca trilhei,
Senão em meus sonhos, na minha imaginação, de forma tímida e muito audaz...
Escrevo esses versos para que saiba o quanto o tempo passou...
O quanto amei você... que me entreguei completamente a você... e que tudo isso foi em vão,
Haja vista o desfecho da nossa história, que sequer existiu, que sequer durou,
Que sequer foi vivida... mas que fica perpetuada, em segredo, no nosso coração.
Esses versos que escrevo são para dizer que seguirei em frente,
Com algumas cicatrizes em meu coração, mas... é hora de dizer adeus
E seguir adiante, ainda que por passos tortos e respiração ofegante...
Lágrima por um fio e escrevo mais uns versos para dizer que o tempo foi cruel com a gente
Por não nos permitir um encontro mais adequado, por nos ferir tanto assim...
Não, não tem jeito... é hora de partir, levantar voo... em meio a uma saudade intermitente.
Há momentos em que nos sentimos (e de fato estamos) tão próximos
E, ao mesmo tempo, (devemos estar) tão distantes.
Milímetros tornam-se longínquas milhas
E não sabemos exatamente como lidar com isso.
A união só é possível em nosso imaginário...
Pois nunca será possível no mundo que vivemos...
Num dado momento é assim que nos vemos neste mundo,
Na vida que levamos com as pessoas que nos acompanham...
Às vezes as perdas nos causam esse tipo de sentimento,
Uma vontade imensa de que ao menos pudéssemos trocar um longo, forte, demorado e apertado abraço.
A saudade é aquela palavra que traduz um mundo de pensamentos...
Faz a gente refletir, na tentativa de compreender todos os sentimentos...
Mas parece ser vã a tentativa de entender as coisas do coração,
A tentativa de racionalizar tudo aquilo que extrapola a razão.
O tempo passa de maneiras diferentes quando lidamos com a ausência...
Ora passa rápido demais, ora demora uma eternidade, exigindo-nos paciência...
O fato é que o tempo implacavelmente passa, independente da nossa vontade,
Restando-nos administrá-lo, dando significado para tudo que vale a pena, de verdade.
As lembranças sempre estarão na nossa mente, no nosso coração, a cada fechar dos olhos,
Em cada gesto, cada ato, cada palavra, em todos os instantes que foram só nossos...
E não há quem nos tire isso... não há quem remova essa tatuagem feita na alma.
É nos versos da vida que deixamos nos guiar pelas emoções,
Tornando todos os momentos, únicos, em doces e eternas recordações,
Ainda que a distância seja ínfima e a ausência infinitamente grande.